"Miami Vice" foi uma das séries mais influentes da década de 80 e introduziu uma nova linguagem para a televisão, valorizando a imagem e apostando no poder da trilha sonora. Além de mudar para sempre as séries policiais, também foi homenageado por uma das maiores franquias dos videogames, "Grand Theft Auto", que lhe dedicou o episódio "Vice City".
Agora, na onda de reviver as séries clássicas nas telas do cinema - aconteceu, por exemplo, com "Os Gatões" e "As Panteras" -, "Miami Vice" também chegou às grandes telas. Nos games, não teve muito êxito até agora - na verdade, recebeu uma versão hedionda em 2004 para PC, PlayStation 2 e Xbox apenas na Europa -, mas, felizmente, a edição para PSP é muito melhor que isso.
Dois tiras da pesada
"Miami Vice: The Game" é um jogo de ação cuja mecânica principal é o de tiroteios. Ou seja, lembra títulos como "Max Payne" ou "Dead to Rights", mas um pouco mais realistas. É como pegar somente as partes de tiroteios de games como "Grand Theft Auto" ou "True Crime: Streets of New York", só que melhoradas o suficiente para se manter praticamente só com isso.
O enredo é o mesmo da série: James Crockett, o Sonny, e Ricardo Tubbs, o Rico, são, como diria o humorístico Casseta & Planeta, uma típica "dupla de dois tiras". Eles são agentes disfarçados, que andam com roupas e carros de luxo, além de barcos. Aqui, tudo começa quando eles salvam um informante de traficantes.
Os controles do game foram claramente copiados de "Resident Evil 4", mas sem a mesma robustez. Ou seja, você verá seu personagem - Sonny ou Rico, você escolhe no começo - quase sempre de costas, e na hora de empunhar a arma, a tela faz um pequeno zoom e a câmera se posiciona sobre o ombro direito do policial.
Esta fórmula já foi testada e aprovada, mas em "Miami Vice" a mira é prejudicada tanto pela imprecisão do direcional analógico do portátil quanto pelo desempenho do próprio jogo, que é um tanto "pesado", ou seja, o fluxo de tela não é tão suave como desejável. Se o título não tivesse uma dificuldade amena, provavelmente muitos PSP espatifariam pelas paredes, pelo menos daqueles que tem dinheiro para comprar outro exemplar. Além disso, diante alguns efeitos de luz, a mira laser some e a câmera também não ajuda. Uma hora são ângulos desfavoráveis, em outras, a cabeça do personagem tapa toda visão.
Para andar e correr, outra complicação. É difícil andar reto e, além disso, há problemas com o sistema de detecção de colisões. Normalmente, colocar o direcional para os lados faz com que o personagem vire, mas, ao pressionar o botão triângulo, o policial passa a andar para os lados. Em teoria, é um bom sistema, mas, novamente, com o seu "boneco" se enroscando em tudo, não há mecanismo que se sustente.
Em meio a um fogo pesado
Uma das características do game, e o principal método para combater efetivamente, é poder usar todo tipo de obstáculo para escapar dos tiros. Claro, isso não é novidade - existe desde "Tenchu", jogo originário para PSOne -, mas quase sempre funciona. Ou seja, o personagem pode "grudar" e ficar de costas para paredes, pilastras ou outros tipos de obstáculos para se proteger.
Assim, você pode esgueirar o corpo para atirar pelos cantos ou por cima do objeto, minimizando os riscos de se expor ao ataque adversário. Os tiroteios são intensos e conseguem recriar o clima de tensão dos filmes policiais. A cena típica é quando você está escondido, no meio ao fogo pesado, e tranquilamente está recarregando a munição.
Os inimigos até tem uma boa inteligência artificial. Eles procuram abrigo, trocam de posição constantemente, mas falta-lhes agressividade e iniciativa. E como eles não tem granadas, o jogador pode ficar escondido a vida inteira. Ou seja, o game é relativamente fácil, e os mais experientes talvez já devam experimentar os níveis de dificuldades mais avançados.
Você pode carregar duas armas por vez, mas equipamentos mais poderosos diminuem o multiplicador de bônus no final da fase. Além disso, os personagens podem carregar até três kits médicos, mas seu uso também faz diminuir o bônus. Outros itens disponíveis nas fases são vários tipos de drogas, alguns escondidos dentro de objetos quebráveis, como vasos.
Tudo isso está mostrado no mapa, o que torna tudo mais fácil, mas para isso é preciso "comprar" essas informações com drogas. No entanto, o preço a se pagar é quase simbólico. Os narcóticos são mesmo a principal fonte de renda dos policiais. Com eles, você pode negociar com traficantes e até mesmo com os chefes dos cartéis.
Negócios, negócios
Terminada a primeira fase, o jogador vai para uma tela de mapa-múndi com diversos ícones, que representam diversas localidades. Uma delas é a delegacia, onde você poderá guardar e retomar diversos tipos de drogas apreendidas ou decodificar as FlashRAM, um item especial encontrado nas fases.
Com ele, você joga um minigame, uma espécie de jogo de nave cujo intuito é explodir os inimigos com uma redoma de energia, numa mecânica similar ao inédito "Every Extend Extra", também para PSP. Passando por três fases desse minigame, você quebra a segurança e obtém a informação, que na prática significa melhoramento de armas e locais onde estão os barões da droga. Ainda na delegacia, você pode salvar e carregar os dados.
No mapa-múndi você pode acessar loja de traficante de armas, que permite comprar equipamentos e melhorar os que você já tem. Também pode usar serviços de um informante, que indica a localização de drogas, kits médicos, inimigos, câmeras e as FlashRAM. Na loja de roupas é possível comprar um colete, que aumenta a defesa, e uma roupa chique, que aumenta a reputação.
Para conseguir dinheiro, é preciso vender as drogas. Há diversos traficantes na cidade e cada um deles lida com produtos diferentes e tem preços variados. A reputação do jogador ajuda na hora da negociação. Há um rudimentar sistema de economia, que faz aumentar ou diminuir o preço dos narcóticos dependendo do dia. Mas o mais rentável é lidar com os barões, que são especializados numa única droga.
Com eles, o funcionamento também é diferente, como um minigame de negociação em duas etapas. O intuito é deixar o indicador na faixa azul até que a barra de baixo se complete. Durante esse processo, o jogador pode ser mais agressivo ou diplomata, apertando os botões correspondentes. O primeiro confere bônus, mas deixa o minigame mais difícil e o segundo é exatamente o contrário.
Como na Miami nos anos 80
O game avança quando você ativa o ícone amarelo. Depois, você escolhe uma das roupas e duas armas. Lembre-se que há trajes que conferem mais bônus, assim como equipamentos mais modestos. A pistola, por exemplo, dobra os pontos obtidos no final do estágio. Algumas das fases são diferentes, como perseguições de barcos.
Tudo isso pode ser jogado em modo multiplayer cooperativo via rede local, que ajuda a reviver a parceria da série original. É verdade que os inimigos não requerem estratégias muito elaboradas, mas uma ajuda é sempre bem-vinda.
Falta polimento para alguns objetos, como os carros, mas no geral, o visual é bom. Os cenários são bem construídos, incluindo mansões, florestas, becos e viadutos, mas as texturas são um pouco grosseiras. Já os personagens têm bom nível de detalhes, principalmente no rosto. O que disfarça um pouco a crueza dos cenários são as boas iluminações, assim, o resultado final fica um pouco melhor.
A trilha musical é competente, com boas composições e que se encaixam bem às cenas. Os efeitos sonoros também são bons. Durante os combates, os bandidos ficam falando algumas frases durante os confrontos, e isso completa as cenas, mas eles repetem muito os diálogos. As dublagens das cenas não-interativas não são brilhantes, mas cumprem seu propósito.
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